Zé Gotinha nasceu pra convencer criança a tomar vacina, e o mesmo Ministério teve que aprender a falar de camisinha sem infantilizar nada

Zé Gotinha foi criado em 1986 pra fazer criança querer tomar vacina. Poucos anos depois, o mesmo Ministério da Saúde teve que lançar uma campanha de prevenção sexual direta pra adolescente, sem nenhum resquício da linguagem infantil que fez o personagem funcionar.
Cabeça de gota d'água, touca de seringa, sorriso fixo: Zé Gotinha existe pra transformar uma agulha em algo que não dá medo. Criado pelo ilustrador Darlan Rosa a pedido do Ministério da Saúde, o personagem venceu um concurso nacional entre estudantes que decidiu o nome, estreou oficialmente em 1987 e ajudou a consolidar o Programa Nacional de Imunizações, contribuindo pra erradicar a poliomielite no país. Virou referência tão forte em comunicação de vacinação infantil que o próprio Darlan Rosa chegou a colaborar com a UNICEF em campanhas parecidas em outros países.
O mesmo Ministério que investiu nesse registro infantil e lúdico teve, poucos anos depois, que enfrentar um problema de comunicação completamente diferente: convencer adolescente a usar camisinha. Em 2003, lançou uma campanha nacional voltada especificamente pra meninas de 13 a 19 anos, direta sobre sexo e prevenção, sem qualquer resquício de linguagem infantilizada. Não dava pra mandar o Zé Gotinha falar de camisinha.
A escala dessas campanhas de prevenção também foi grande: sob a gestão do então ministro Barjas Negri, o Brasil chegou a ser o maior comprador de camisinhas do mundo, distribuindo o insumo gratuitamente pelo SUS. Só que convencer não é só distribuir. Pesquisas mais recentes mostram que o uso de camisinha entre jovens de 15 a 24 anos caiu de 58,4% para 56,6% com parceiros eventuais, e de 38,8% para 34,2% com parceiros fixos, entre 2004 e 2013, sinal de que campanha de saúde pública, mesmo bem-feita, não é conquista permanente.
Uma linguagem pra cada idade, pro mesmo assunto
Zé Gotinha segue ativo quase 40 anos depois, hoje até respondendo dúvida sobre calendário vacinal em vídeo. E o desafio que motivou a virada de tom nas campanhas de prevenção continua o mesmo: falar de saúde pública exige escolher o personagem certo pra cada público, sem infantilizar quem já não é criança, e sem tratar como adulto quem ainda precisa de um Zé Gotinha.
Calibrar tom pra plateia é trabalho de locução tanto quanto de roteiro. Nos cursos de locução publicitária da Escola de Rádio, isso entra como técnica: a mesma informação muda de peso dependendo de quem fala e de como fala.
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