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Zé Gotinha nasceu pra convencer criança a tomar vacina, e o mesmo Ministério teve que aprender a falar de camisinha sem infantilizar nada

Por Arthur Jobim2 min de leitura
Microfone condensador com filtro pop em estúdio de gravação profissional, com painéis acústicos ao fundo

Zé Gotinha foi criado em 1986 pra fazer criança querer tomar vacina. Poucos anos depois, o mesmo Ministério da Saúde teve que lançar uma campanha de prevenção sexual direta pra adolescente, sem nenhum resquício da linguagem infantil que fez o personagem funcionar.

Cabeça de gota d'água, touca de seringa, sorriso fixo: Zé Gotinha existe pra transformar uma agulha em algo que não dá medo. Criado pelo ilustrador Darlan Rosa a pedido do Ministério da Saúde, o personagem venceu um concurso nacional entre estudantes que decidiu o nome, estreou oficialmente em 1987 e ajudou a consolidar o Programa Nacional de Imunizações, contribuindo pra erradicar a poliomielite no país. Virou referência tão forte em comunicação de vacinação infantil que o próprio Darlan Rosa chegou a colaborar com a UNICEF em campanhas parecidas em outros países.

O mesmo Ministério que investiu nesse registro infantil e lúdico teve, poucos anos depois, que enfrentar um problema de comunicação completamente diferente: convencer adolescente a usar camisinha. Em 2003, lançou uma campanha nacional voltada especificamente pra meninas de 13 a 19 anos, direta sobre sexo e prevenção, sem qualquer resquício de linguagem infantilizada. Não dava pra mandar o Zé Gotinha falar de camisinha.

A escala dessas campanhas de prevenção também foi grande: sob a gestão do então ministro Barjas Negri, o Brasil chegou a ser o maior comprador de camisinhas do mundo, distribuindo o insumo gratuitamente pelo SUS. Só que convencer não é só distribuir. Pesquisas mais recentes mostram que o uso de camisinha entre jovens de 15 a 24 anos caiu de 58,4% para 56,6% com parceiros eventuais, e de 38,8% para 34,2% com parceiros fixos, entre 2004 e 2013, sinal de que campanha de saúde pública, mesmo bem-feita, não é conquista permanente.

Uma linguagem pra cada idade, pro mesmo assunto

Zé Gotinha segue ativo quase 40 anos depois, hoje até respondendo dúvida sobre calendário vacinal em vídeo. E o desafio que motivou a virada de tom nas campanhas de prevenção continua o mesmo: falar de saúde pública exige escolher o personagem certo pra cada público, sem infantilizar quem já não é criança, e sem tratar como adulto quem ainda precisa de um Zé Gotinha.

Calibrar tom pra plateia é trabalho de locução tanto quanto de roteiro. Nos cursos de locução publicitária da Escola de Rádio, isso entra como técnica: a mesma informação muda de peso dependendo de quem fala e de como fala.

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