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Quando o Brasil desligou, em 2022, a voz que dizia as horas ao telefone, a única reclamação pública veio de um aposentado cego

Por Arthur Jobim2 min de leitura
Telefone antigo preto com fone fora do gancho sobre superfície de mármore branco, remetendo à época em que se discava para saber a hora certa

O serviço telefônico de hora certa (130) foi desligado em 2022 depois de décadas no ar. A técnica de fragmentos de áudio remontados na hora, a linhagem com o Rádio Relógio, e o inquérito aberto pela reclamação de um aposentado cego.

Em 24 de janeiro de 2022, a Telefônica desligou o número 130, o serviço de hora certa por telefone que gerações de brasileiros usaram pra acertar o próprio relógio. A empresa justificou como tecnologia obsoleta. A reação pública mais forte veio de um aposentado cego identificado como Damião Silva, que reclamou publicamente de ter perdido uma das poucas formas totalmente acessíveis de saber as horas sozinho; o Ministério Público chegou a abrir um inquérito civil pra avaliar se a extinção do serviço violava direito coletivo.

Uma voz gravada em pedaços, remontada na hora

A gravação dizia algo como "Telesp informa, são tantas horas e tantos minutos", identificando a operadora estadual responsável. A hora que alimentava o serviço vinha, e ainda vem, de uma fonte só: a Hora Legal Brasileira, gerada pelo Observatório Nacional desde 1913. Em serviços desse tipo ao redor do mundo, a técnica não gravava a frase inteira de uma vez: gravava fragmentos separados (números, "faltam", "minutos", "horas") e um mecanismo sincronizado ia buscando e tocando cada pedaço na ordem certa, a cada poucos segundos, pra sempre soar atualizado.

O 130 também tinha uma linhagem: segundo o jornalista Ancelmo Gois, o serviço sucedeu, na função de "dar a hora ao povo", o programa Rádio Relógio, que foi encerrado em 1967. A função social não desapareceu, só migrou de aparelho: do rádio de sala pro telefone de qualquer casa.

Décadas depois de o Rádio Relógio fazer o mesmo trabalho de outro jeito, o 130 morreu quase em silêncio. A diferença é que, dessa vez, alguém notou a falta em voz alta o suficiente pra virar inquérito.

Uma voz que marcava a rotina de milhões, décadas seguidas, sem nunca aparecer, é um bom lembrete de que locução é ofício, não talento nato. Quem quiser aprender a usar a própria voz assim, do zero, encontra isso no curso de Locução Básica da Escola de Rádio.

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