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A mesma garganta fez o Scooby-Doo, o Popeye e o Gargamel

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Microfone condensador profissional com fones de ouvido dentro de uma cabine de gravação com isolamento acústico, e a silhueta de uma pessoa visível atrás do vidro do estúdio de dublagem

Scooby-Doo, Popeye, Gargamel, Vingador, Seu Peru: tudo saiu de um único homem. Orlando Drummond dublou por quase 80 anos, entrou para o Guinness e provou que dublar é criar um personagem só com a voz.

O riso bobo do Scooby-Doo. A voz rouca e resmungona do Popeye. A maldade fininha do Gargamel atrás dos Smurfs. O Vingador da Caverna do Dragão. Geração após geração de crianças brasileiras cresceu ouvindo esses personagens sem desconfiar de que, por trás de todos eles, havia um único homem: Orlando Drummond. Foi a mesma garganta que emprestou voz a alguns dos desenhos mais marcantes que já passaram na televisão do país.

Quase oito décadas no microfone

Drummond viveu 101 anos, de 1919 a 2021, e passou quase oito décadas trabalhando. Começou em 1942 fazendo sonoplastia, criando efeitos de som, e entrou na dublagem com a ajuda de Paulo Gracindo. Não parou mais: acabou no Guinness como o dublador com a carreira ativa mais longa do mundo, e deu voz ao Scooby-Doo por mais de trinta e cinco anos seguidos. Fora dos desenhos, foi o Seu Peru da Escolinha do Professor Raimundo.

Dublar é criar um personagem inteiro só com a voz

A lista de personagens dele explica, melhor que qualquer definição, o que é dublagem de verdade. O Scooby pedia um cachorro medroso e atrapalhado; o Popeye, um marinheiro rabugento de boca torta; o Gargamel, um vilão mesquinho e ridículo. Três criaturas opostas, todas saídas da mesma pessoa, porque dublar não é ler uma tradução em voz alta, é construir um ser do zero, com riso, ritmo e alma próprios, encaixado no movimento de um desenho. É atuação, feita inteira pela voz.

Um ofício que ele ajudou a dignificar

A dublagem brasileira é considerada uma das melhores do mundo, e esse prestígio foi construído por profissionais como Drummond, numa época em que o dublador trabalhava no anonimato completo, sem crédito e sem fama. Hoje a coisa mudou: os fãs reconhecem as vozes, cobram os dubladores originais, choram quando um se aposenta. O trabalho saiu da sombra, mas a exigência continua a mesma: interpretar tão bem que o público esqueça que há um ator ali.

O que ele deixou para quem quer dublar

A herança de Drummond não é só uma galeria de personagens queridos; é a prova de que a interpretação, treinada, faz uma pessoa só virar dezenas de criaturas diferentes. Essa capacidade de desaparecer dentro de um personagem usando só o que sai da boca é, no fundo, o que se estuda num curso de interpretação para locução. Orlando Drummond fez isso por quase um século, e nunca precisou aparecer para ser reconhecido.

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