Pular para o conteúdo
ER+ Escola de Rádio TV & Web
Voltar pro blogDicas de Estágio e Trabalho

O texto de um locutor profissional é todo rabiscado, e isso é proposital

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Mãos segurando as páginas de um roteiro com um lápis, sobre uma mesa de madeira com outros roteiros marcados com post-its e anotações coloridas e uma máquina de escrever ao fundo

Antes de gravar, o locutor não lê o texto: ele o marca. Conheça a partitura secreta da locução, barras de respiração, ênfases e setas de entonação, e por que marcar é interpretar.

Quem pudesse espiar o roteiro nas mãos de um locutor segundos antes da gravação veria um texto que parece ter sido atacado a caneta, cheio de barras, traços e setas que não dizem nada para quem está de fora. Não é desorganização, é o contrário. Esses rabiscos funcionam como uma partitura: dizem ao locutor onde respirar, o que enfatizar, quando acelerar e em que ponto a voz sobe ou desce. Chama-se marcação de texto, e é um dos hábitos que separam quem lê de quem locuta.

Por que não basta simplesmente ler bem

Um texto escrito traz as palavras, mas não traz instruções de como dizê-las. A mesma frase pode ser lida de dez maneiras diferentes, e só uma delas é a certa para aquela peça. Sem preparo, o locutor tropeça em nomes difíceis, respira no meio de uma ideia, enfatiza a palavra errada e deixa a entonação cair onde deveria subir. A marcação resolve isso antes de o microfone ligar: é o momento em que o locutor lê, entende e decide como vai dizer cada trecho.

Os sinais mais comuns

Cada profissional desenvolve o seu código, mas alguns sinais são quase universais:

  • Barra simples para uma respirada rápida, barra dupla para uma pausa maior. É o que evita aquele fôlego ofegante no lugar errado.
  • Palavra sublinhada é palavra que recebe peso, a que carrega o sentido da frase.
  • Seta para cima quando a voz precisa subir, uma pergunta, um suspense, e para baixo quando ela fecha a ideia.
  • Círculo em nomes próprios, números e termos técnicos, os campeões de tropeço, para o olho avisar o cérebro com antecedência.
  • Anotações à margem como devagar, sorrindo ou firme, lembretes da intenção de cada parte.

Marcar é interpretar antes de gravar

Marcar não é enfeitar o texto: é decidir o que a frase quer dizer. Mude a ênfase de lugar e o sentido muda junto. Eu não disse isso não é a mesma coisa que eu não disse isso, e a diferença mora inteira na palavra que recebe o peso. Por isso dois bons profissionais marcam o mesmo roteiro de formas diferentes.

Marcação se treina, não se improvisa

Saber onde colocar cada sinal exige entender respiração, sentido e intenção ao mesmo tempo, e é isso que o iniciante ainda não tem. Ele exagera nos sinais, esquece os que importam ou põe peso na palavra errada, e o resultado aparece na voz. A leitura que soa mais solta costuma ser a mais preparada. É um dos primeiros ofícios que se treina no curso de Locução da Escola de Rádio: pegar um texto cru e deixá-lo pronto para a voz.

Compartilhar

Receba novas postagens no seu email

Posts relacionados