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O que faz um locutor experiente tropeçar é quase sempre um número

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Locutora com fones de ouvido lê o roteiro apoiado na mesa enquanto fala ao microfone profissional dentro de um estúdio de rádio com isolamento acústico

Não é a palavra difícil nem o texto comprido: o pior inimigo de uma leitura ao vivo é o número grande, a sigla e o nome que não se lê como se escreve. Por que tropeçam e como o profissional se prepara.

Pergunte a qualquer locutor qual é o pior inimigo de uma leitura ao vivo, e a resposta provavelmente não vai ser uma palavra difícil nem um texto comprido. Vai ser um número. Ler 1.482.937 reais e 55 centavos de primeira, sem gaguejar, no ritmo certo, é uma das tarefas mais traiçoeiras da locução, e uma das que mais separam quem treinou de quem só tem boa voz.

Por que número é tão difícil de ler

Uma palavra a gente reconhece inteira, de relance. Um número, não: o olho precisa contar as casas, decidir se é milhão ou bilhão, organizar os reais e os centavos, tudo isso enquanto a boca já está falando. O cérebro faz três coisas ao mesmo tempo, e qualquer atraso aparece como hesitação. Some a isso datas, porcentagens, placares, horários e códigos, e se entende por que o número é a parte mais escorregadia da leitura.

Siglas e nomes que não se leem como se escrevem

Logo atrás vêm as siglas e os nomes próprios. Algumas siglas se falam letra por letra, outras como palavra, e errar entrega o amador. Nome de cidade estrangeira, de remédio, de empresa, de autoridade pouco conhecida: cada um é uma cilada em potencial, porque pronunciar errado mancha a credibilidade de tudo o que veio antes.

O que o profissional faz antes de ler

A diferença está toda na preparação, e ela acontece longe do microfone. Antes de entrar no ar, o locutor experiente lê o número mentalmente primeiro: decide se é milhão ou bilhão, agrupa as casas, ensaia a cifra em voz alta uma vez antes que ela chegue de verdade. Confirma a pronúncia das siglas e dos nomes na dúvida. Quando o trecho complicado aparece, ele já passou por ali antes, não está lendo de surpresa.

Às vezes, o melhor é não ler o número

Com a prática vem também uma decisão de bom senso: nem todo número precisa ser dito inteiro. Pouco menos de um milhão e meio de reais comunica melhor do que a cifra exata até os centavos, e ainda some o risco de tropeço. Saber a hora de arredondar, de trocar a precisão pela clareza, é parte do ofício de quem fala para ser entendido, não para impressionar.

O ouvinte não sabe o que ouviu, mas percebe

Ler número e nome difícil sem hesitar parece um detalhe, mas é o tipo de coisa que o ouvido percebe na hora, mesmo sem saber explicar por quê. É um fundamento que só se constrói lendo de verdade, com texto na mão e microfone ligado, exatamente o que se treina num curso de locução, e que separa quem tem voz de quem trabalha de voz. Quem quiser começar pode falar com a gente no WhatsApp.

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