O mito do português neutro: sotaque tem certo e errado?

"Você precisa perder o sotaque" é o conselho que todo aspirante a locutor ouve. Mas, para a linguística, sotaque neutro não existe. Entenda o que a mídia chama de neutro e o que o mercado de voz realmente pede.
Quem sonha em trabalhar com a voz quase sempre esbarra no mesmo conselho: "você precisa perder o sotaque". Como se existisse um jeito certo e neutro de falar, e todos os outros fossem versões com defeito a serem corrigidas. A verdade incomoda um pouco, mas liberta: do ponto de vista da língua, sotaque neutro não existe.
Todo mundo tem sotaque
Para a linguística, não há sotaque melhor ou pior, nem sequer um critério para medir isso. O carioca acha que o paulista tem sotaque, o paulista acha o mesmo do gaúcho, e assim por diante. Ninguém fala "sem sotaque"; cada um fala com o seu. O que chamamos de fala "neutra" é uma questão social e de hábito, não um fato da língua.
O que a mídia chama de neutro
Aquilo que o rádio e a TV apelidaram de "sotaque neutro", o tal "sotaque do Jornal Nacional", é, na verdade, um padrão construído: uma mistura de pronúncia carioca e paulista, com alguns ajustes, que foi eleita modelo por razões históricas, não científicas. É um sotaque como qualquer outro, que só virou referência porque ocupou os microfones primeiro. Chamá-lo de neutro é um apelido, não uma verdade.
O que o mercado realmente pede
Então o conselho está todo errado? Não totalmente, só mal explicado. O que muitos trabalhos pedem não é apagar de onde você é, e sim duas coisas concretas: dicção clara, para ser entendido em qualquer lugar do país, e versatilidade, para suavizar um regionalismo muito marcado quando o job específico exige. Isso é técnica, é uma ferramenta a mais na caixa, e não jogar fora a sua identidade. O sotaque carregado não é defeito; dicção descuidada, essa sim, atrapalha.
Aprender a controlar a própria fala sem apagar quem você é, ajustar quando o trabalho pede e manter a naturalidade no resto, é parte do que se treina nos cursos de locução da Escola de Rádio. Seu sotaque não é um problema a resolver: é um ponto de partida a dominar.
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