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A voz que dizia "Num mundo..." nunca disse isso de verdade

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Microfone condensador profissional com filtro pop, fones de ouvido e mesa de som em estúdio escuro com iluminação cinematográfica em tons de roxo e laranja

A voz grave que anuncia todo filme tem dono: Don LaFontaine, que gravou mais de cinco mil trailers. E o bordão que virou sua marca, ele jurava nunca ter dito. Por que o trailer fala desse jeito.

Existe um jeito de falar que praticamente qualquer pessoa reconhece em dois segundos, mesmo sem nunca ter parado para pensar nele: a voz grave, pausada e solene que anuncia os filmes. "Num mundo onde..." Aquele timbre capaz de fazer uma comédia romântica soar como o acontecimento mais importante da década. Por trás desse jeito de falar existe, em boa medida, um único homem, um americano chamado Don LaFontaine, que gravou mais de cinco mil trailers e moldou a maneira como o cinema fala de si mesmo.

O homem que anunciou Hollywood

LaFontaine caiu na profissão por acaso, em 1964, ao cobrir um locutor que faltou a uma gravação. Décadas depois, era chamado de a voz de Deus do cinema. Emprestou o timbre a cerca de trezentos e cinquenta mil comerciais e chamadas, além dos trailers, ao longo da carreira. No auge, gravava sessenta peças por semana e, em dias de pico, chegou a trinta e cinco num único dia, levado de estúdio em estúdio às vezes de limusine para dar conta da agenda. A voz dele abriu desde Terminator 2 até Shrek.

A frase que ele nunca disse

"In a world...", ou "Num mundo...", virou a marca registrada de LaFontaine. Só que ele próprio afirmava jamais ter pronunciado essas palavras num trailer de verdade. A assinatura grudou assim mesmo, porque ele se tornou tão sinônimo daquele tom que a frase passou a pertencer a ele por direito de imitação.

Por que o trailer fala desse jeito

A locução de trailer não é exagero gratuito: é um gênero, com regras próprias. O grave transmite autoridade e importância. A pausa cria suspense e segura a respiração de quem assiste. O crescendo conduz a emoção até o título do filme aparecer na tela. Em noventa segundos, a voz tem que vender não a história, mas a sensação de assistir àquela história. Cada escolha de ritmo e tom está a serviço disso.

Não é questão de ter a garganta grossa

Voz de trailer não é privilégio de quem nasceu com um vozeirão. O que sustenta o gênero é interpretação, intenção e controle, não a espessura das cordas vocais. Locutores de timbres bem diferentes fazem trailer e chamada o tempo todo, o que muda é o que cada um faz com a voz que tem. Transformar a própria voz numa ferramenta de interpretação é justamente o que um curso de locução de fato treina. LaFontaine morreu em 2008, mas o tom que ele consolidou continua tocando em cada "em breve, nas melhores salas".

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