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Vaiado num bloco de Carnaval em 1950, um carro elétrico deu origem à voz que hoje puxa mais de 1 milhão de pessoas em Salvador

Por Arthur Jobim2 min de leitura
Foliãs dançam com sombrinhas coloridas em bloco de carnaval de rua no Brasil, cercadas por multidão animada ao entardecer

Dodô e Osmar apresentaram o trio elétrico em 1950 num Ford vaiado pelo próprio bloco. A solução técnica que eles criaram pra amplificar som sem microfonia deu origem à função de quem hoje sustenta, com a voz, um circuito de mais de 1 milhão de pessoas no Carnaval de Salvador.

O Ford 1929 apelidado "Fobica" foi vaiado pelo próprio bloco que acompanhava, mas seguiu tocando até terça-feira de Carnaval. Foi assim que Dodô (Adolfo Antônio Nascimento) e Osmar (Osmar Álvares de Macêdo) apresentaram, em 1950, o carro que deu origem ao trio elétrico, durante o desfile do bloco Fantoches da Euterpe, em Salvador. A reação inicial de estranhamento não durou: o povo da avenida pediu bis, e o carro amplificado virou tradição.

A viabilidade técnica vinha de antes. Ainda na década de 1940, Dodô e Osmar desenvolveram o que ficou conhecido como "pau elétrico", um instrumento eletrificado que, diferente de outros equipamentos amplificados da época, não provocava microfonia. Sem essa solução, não teria sido possível amplificar música e voz em cima de um carro em movimento, cercado de multidão, sem o som virar um apito insuportável de realimentação. Os trios de hoje têm dezenas de caixas de som e estrutura reforçada; a função do pau elétrico original, amplificar sem virar ruído, é a mesma que sustenta o circuito até hoje.

De um carro vaiado a um circuito de milhões

Em 1951, Dodô e Osmar convidaram o instrumentista Temístocles Aragão pra formar oficialmente o trio, batizado no ano seguinte. Hoje, quem sobe num trio elétrico pra puxar multidão, não necessariamente pra cantar sozinho, virou função reconhecida: Durval Lelys, chamado de "Rei da Rua", comanda o bloco Me Abraça carregando o público pelos 4,5 km do circuito Barra-Ondina; Tom Kray puxa o bloco Fissura 77. Só o circuito Barra-Ondina reuniu 1.073.202 pessoas num único domingo de Carnaval, e os três maiores circuitos de Salvador somaram 9,4 milhões de pessoas em seis dias oficiais de festa.

Sustentar energia de multidão com a voz, sem microfonia atrapalhando e sem perder o ritmo, é tecnologia e ofício ao mesmo tempo, o mesmo domínio técnico que se treina em produção de áudio e locução ao vivo.

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