Uma rádio no Alto Rio Negro tem comunicadores que falam português e mais quatro línguas indígenas

A Rede Wayuri, no Alto Rio Negro, e a Rádio Yandê, pioneira das webrádios indígenas, usam o rádio pra manter vivas línguas originárias e conectar comunidades isoladas. Uma face pouco vista da comunicação no Brasil.
São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro amazonense, é o único município do Brasil com quatro línguas indígenas cooficializadas junto com o português. É ali que atua a Rede Wayuri, fundada em 2017 por dezessete jovens de oito etnias diferentes: hoje cobre três municípios, mais de setecentas comunidades e vinte e três povos indígenas, produzindo um programa semanal de rádio e conteúdo online em várias línguas ao mesmo tempo.
Falar mais de uma língua não é opcional
Os comunicadores da Wayuri costumam ser poliglotas por necessidade: além do português, muitos falam duas, três, até cinco línguas indígenas da região, e às vezes também espanhol, pra dar conta de comunidades vizinhas de outros países. A rede foi pioneira noutra frente: durante a pandemia, produziu boletins de saúde em áudio traduzidos pras aldeias, quando a informação oficial em português simplesmente não chegava a quem só falava a língua originária.
Rádio como sistema de emergência no Rio Negro
No Rio Negro, uma rede de radiofonia mantida pela organização indígena FOIRN funciona desde 1995 como principal meio de comunicação entre comunidades espalhadas ao longo dos rios, muitas sem sinal de celular. Durante a pandemia, o distrito sanitário da região instalou seis novas estações de radiofonia em pontos estratégicos: ali, é pelo rádio que uma aldeia isolada consegue pedir socorro quando não há outro sinal.
Um projeto mais antigo, com o mesmo princípio
Antes da Wayuri, a Rádio Yandê já transmitia falas e músicas em línguas originárias pela internet desde 2013, fundada por indígenas no Rio de Janeiro como a primeira webrádio indígena do país: uma emissora 24 horas que não traduz o que vai ao ar pro português. O Brasil tem hoje 295 línguas indígenas registradas, faladas por 391 etnias diferentes, segundo o Censo de 2022 do IBGE. A maior parte delas nunca teve um microfone. Contar uma história real como essa, de um lugar, um povo, uma rede de rádio que existe de verdade, é o ofício que se estuda no curso de Narração de Documentários da Escola de Rádio.
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