Por que o Brasil nunca escolheu uma tecnologia de rádio digital?

Entre 2007 e 2013, o Brasil testou três tecnologias de rádio digital e nunca escolheu nenhuma. A história do Sistema Brasileiro de Rádio Digital, do preço do aparelho à disputa pelo espectro, e por que o país ainda ouve só AM e FM.
Um rádio digital importado custava R$ 400 em 2012, mais caro que qualquer aparelho comum vendido no país na época. O preço alto foi um dos motivos que travaram a adoção da tecnologia no Brasil, segundo especialistas ouvidos pelo Senado à época dos testes. Entre 2010 e 2012, o Ministério das Comunicações rodou onze séries de testes em sete emissoras, comparando dois padrões concorrentes, e mesmo assim o país nunca escolheu um deles: o rádio brasileiro só transmite em AM e FM até hoje.
Os três padrões em disputa
O HD Radio (ou IBOC), padrão proprietário americano, transmite o sinal digital dentro do mesmo canal AM ou FM já em uso. O DRM é um sistema aberto que cobre ondas curtas e médias (DRM30) e também FM (DRM+), com capacidade de até 186 kbps. O DAB e o DAB+, criados na Europa pelo consórcio Eureka 147, usam uma banda própria, separada do FM, com até 256 kbps, e são a tecnologia adotada pelos países que desligaram o FM.
Dez anos de testes, nenhuma decisão
Segundo a pesquisadora Nélia Del Bianco, da UFOP, o Brasil discutiu rádio digital por cerca de dez anos sem decidir uma tecnologia. Em março de 2007, a Anatel abriu a consulta pública que deu início ao Sistema Brasileiro de Rádio Digital, o SBRD. A Portaria 290, de 2010, institucionalizou o sistema. Em outubro de 2013, o próprio Ministério informou que os testes mediram o sinal digital alcançando menos área que o equivalente analógico. Ainda em 2013, a Subcomissão de Rádio Digital da Câmara dos Deputados recomendou, em relatório preliminar, o HD Radio como o mais adequado ao país. Nenhuma dessas conclusões virou decisão.
A disputa pelo espectro, não só o preço do aparelho
Especialistas ouvidos pelo Senado no período apontaram a disputa pelo uso do espectro de frequências como o principal obstáculo à migração, além do custo do aparelho já mencionado. A TV digital, por comparação, já tinha decreto e padrão definidos desde 2006, um ano antes de o rádio sequer ter um conselho consultivo formado.
Onde a mudança realmente aconteceu
A Noruega desligou o FM nacionalmente em dezembro de 2017, adotando o DAB. Na ocasião, apenas 49% dos carros tinham rádio com DAB, a emissora pública NRK perdeu 21% de audiência, e a escuta diária de rádio caiu 10% em um ano. Só as redes nacionais saíram do FM: as emissoras locais continuam nele.
A página oficial da Anatel sobre rádio digital ainda existe, mas não é atualizada desde 2021. Não existe um ato formal encerrando o SBRD, nem uma nova consulta pública marcada: a pauta atual de radiodifusão no Brasil é a TV 3.0, com decreto publicado em 2025.
Histórias como essa mostram que rádio é, antes de tudo, uma questão técnica: transmissão, espectro, padrões. Quem quer entender esse lado de dentro, não só o microfone, encontra isso no curso de Produção Profissionalizante da Escola de Rádio.
Posts relacionados

Uma rádio legalizada no Brasil é obrigada, por lei, a dizer o próprio nome no ar
Toda transmissão de rádio legalizada no Brasil abre com o nome da emissora seguido de um código técnico, o prefixo, atribuído pela Anatel. Entenda por que essa identificação falada segue obrigatória.

Uma rádio pirata interferiu na comunicação das torres de controle de Guarulhos e Congonhas
A Anatel fecha em média seis rádios piratas por dia no Brasil. Um caso recente mostra o risco real: uma emissora clandestina interferiu na comunicação das torres de Guarulhos e Congonhas.

Anatel diz que 72% dos aparelhos celulares vendidos no país têm chip FM ativado
Sete em cada dez celulares vendidos no Brasil têm FM ativo. Um destaque que coloca o país à frente de mercados internacionais na radiodifusão.