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Um dia depois de narrar a chegada do homem à Lua, um jornalista foi chamado de mentiroso no boteco

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Antenas parabólicas de comunicação no topo de um prédio, contra um céu azul profundo, simbolizando a transmissão via satélite

Em julho de 1969, uma antena de 30 metros na Baía de Guanabara captou o sinal de satélite que levou a chegada do homem à Lua pra tela dos brasileiros, e um jornalista sozinho no estúdio teve que narrar, ao vivo, um acontecimento que parte do público não acreditava ser real.

No dia seguinte à transmissão da chegada do homem à Lua, o jornalista Hilton Gomes foi ao bar onde tomava café todo dia, no Rio de Janeiro, e ouviu de um conhecido que ele tinha mentido. Que aquilo, na noite anterior, não tinha acontecido de verdade. A tecnologia que tornou possível ver um evento acontecendo do outro lado do mundo no instante exato em que acontecia era tão nova que parte do público brasileiro preferia desconfiar do jornalista a acreditar na própria televisão.

Na noite de 20 para 21 de julho de 1969, por volta das 23h56, horário de Brasília, o pouso da Apollo 11 foi retransmitido ao vivo pro Brasil inteiro. O sinal saía dos Estados Unidos, passava pelo satélite Intelsat III, era captado pela recém-inaugurada Estação Terrena de Tanguá, na Baía de Guanabara, uma antena parabólica de 30 metros de diâmetro sobre um pedestal de 10, e de lá seguia pra emissoras de treze cidades brasileiras ao mesmo tempo. Hilton Gomes narrava direto dos estúdios da Globo, no Jardim Botânico, tendo que dar sentido, em tempo real, ao diálogo dos três astronautas chegando por cima da imagem que vinha de fora. "As emoções iam surgindo enquanto eles falavam", ele contou depois.

Uma antena de 30 metros pra receber um sinal do espaço

A estação de Tanguá tinha sido inaugurada cinco meses antes, em fevereiro daquele ano, e o Brasil só tinha aderido ao consórcio internacional Intelsat em junho, poucas semanas antes do pouso na Lua. A infraestrutura inteira era tão recente que a cobertura da chegada à Lua funcionou quase como teste de estreia de um sistema que ainda estava sendo calibrado, na frente do país inteiro.

Hilton Gomes já vinha de uma outra estreia naquele mesmo ano: apresentou, direto de Roma, uma entrevista com o Papa Paulo VI, num episódio descrito como a primeira reportagem internacional via satélite recebida pelo Brasil, usando a mesma tecnologia que semanas depois levaria a chegada à Lua até as telas brasileiras. Ao abrir o noticiário da Globo, ele chegou a saudar "o admirável mundo novo da televisão via satélite".

Quando a tecnologia falha, quem segura a transmissão é a voz

Um ano depois, na Copa de 1970, primeiro Mundial de futebol transmitido via satélite, o áudio internacional caiu durante uma partida entre Peru e Bulgária. O locutor Léo Batista recebeu ordem de segurar a transmissão até o som voltar e narrou o gol búlgaro usando só a escalação impressa que tinha em cima da mesa. O apagão de áudio na Copa de 70 repetiu o que já tinha acontecido com a Lua um ano antes: a tecnologia mais avançada do mundo ainda depende de um profissional treinado o suficiente pra manter a calma quando o sinal falha e o improviso vira o único roteiro possível.

É a mesma calma que se treina hoje em quem quer narrar ao vivo: no curso de Narração Esportiva da Escola de Rádio, o improviso debaixo de pressão vira técnica, não sorte.

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