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O que o Chacrinha entendia sobre o público que os manuais não ensinam

Por Arthur Jobim3 min de leitura
O apresentador Chacrinha (Abelardo Barbosa) equilibrando um disco de vinil na ponta do dedo, em foto de 1961.

Buzina no pescoço, paetês e bacalhau voando para a plateia: o caos do programa do Chacrinha era puro cálculo. A história do comunicador que entendia o público melhor que qualquer manual.

Um cantor tentava terminar a música. Ao lado, um homem de paetês coloridos buzinava no seu ouvido, jogava bacalhau seco para a plateia e gritava por cima de tudo. Não era acidente nem pane — era uma noite normal no programa do Chacrinha. E, por mais caótico que parecesse, cada segundo daquilo era cálculo de um dos maiores comunicadores que o Brasil já produziu.

A pergunta que o palco dele deixou para a história é simples: por que aquela bagunça toda funcionava tão bem?

A resposta não estava no roteiro

Abelardo Barbosa, o Chacrinha, não chegou à TV por acaso. Veio do rádio — foi locutor da Rádio Tupi em 1939 e criou na Rádio Fluminense, em 1943, o programa de carnaval "Rei Momo na Chacrinha", que virou febre. Quando a televisão estreou no Brasil, ele trouxe junto uma certeza aprendida no microfone: o público não quer ser informado, quer ser envolvido.

Por isso buzinava, interrompia, provocava. "Eu vim para confundir, e não para explicar", avisava. Por baixo do aparente descontrole havia alguém lendo a plateia em tempo real, medindo a energia do auditório e ajustando o ritmo a cada segundo. O caos era a superfície; embaixo, trabalhava um relojoeiro.

Quem não se comunica se trumbica

A frase mais famosa dele virou piada nacional, mas é quase uma tese disfarçada de bordão: quem não consegue se conectar com o outro se enrola, se perde, "se trumbica". Chacrinha praticava isso como ninguém. Falava com a dona de casa, com o office-boy e com o artista consagrado no mesmo tom, e fazia todos se sentirem parte da festa. Não havia distância entre o palco e a poltrona de casa.

A linguagem que ele deixou de herança

Em 1969, Gilberto Gil o eternizou em "Aquele Abraço" — "alô, alô, seu Chacrinha, Velho Guerreiro". Quando morreu, em 1988, ficou claro que o Brasil não tinha perdido um animador de auditório, e sim o inventor de uma gramática televisiva. De Silvio Santos a Faustão, boa parte da TV popular que veio depois fala o dialeto que ele criou.

O Velho Guerreiro nunca teve manual — tinha ousadia, tarimba e um faro raríssimo para não deixar ninguém trocar de canal. Esse faro não é dom de berço: tem nome técnico (presença, escuta, domínio de palco) e se desenvolve diante de gente, no microfone, que é o que se treina nos cursos de apresentação da Escola de Rádio. Chacrinha, esse, parecia ter nascido com a buzina na mão.

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