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Um futuro presidente dos Estados Unidos narrava jogos de beisebol inventando lances que nunca aconteceram

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Microfones vintage de estúdio de rádio em close, com luz quente ao fundo, remetendo à era das transmissões esportivas pelo rádio

Nos Estados Unidos, Ronald Reagan recriava jogos de beisebol via telégrafo sem nunca estar no estádio. O Brasil nunca fez isso: foi direto de nenhuma cobertura pra transmissão internacional real. Duas soluções pro mesmo problema, décadas atrás.

Numa nona entrada apertada entre Chicago Cubs e St. Louis Cardinals, em algum dia dos anos 1930, a linha de telégrafo que alimentava a transmissão caiu no meio do lance. Sem nenhuma informação real chegando, o locutor da rádio WHO, de Iowa, simplesmente inventou uma sequência de rebatidas erradas até o sinal voltar. O público nunca soube. O locutor se chamava Ronald Reagan, e décadas depois se tornaria presidente dos Estados Unidos.

Reagan trabalhou como locutor esportivo por cinco anos e recriou mais de 600 jogos de beisebol sem nunca pisar num estádio. O mecanismo funcionava assim: um operador de telégrafo no local do jogo batia cada lance em código Morse; na emissora, outro operador datilografava tiras de papel com abreviações como "B1 S1" (uma bola, um strike) ou "4-3" (rebatida indo da segunda base pra primeira), passando o papel por baixo de uma janela até ele. Reagan lia aquilo em tempo real e transformava a abreviação seca num relato cheio de tensão, como se estivesse vendo o jogo com os próprios olhos.

Um estúdio inteiro fingindo ser um estádio

O efeito sonoro completava a ilusão. As emissoras usavam discos de 16 polegadas com ruído de multidão pré-gravado, um taco de beisebol pendurado no teto do estúdio que ele batia com uma régua de madeira pra simular a rebatida, luva e bola nas próprias mãos pra reproduzir o som da captura. A prática não era exclusividade de Reagan: segundo o historiador de radiodifusão Curt Smith, recriações de jogos fora de casa foram padrão nas emissoras americanas até o fim da Segunda Guerra, e voltaram de forma inesperada em 2020, quando estádios vazios por pandemia forçaram a reconstrução artificial da ambientação sonora. Gordon McLendon, fundador de uma rede de mais de 450 emissoras nos anos 1950, construiu o próprio negócio inteiramente em cima dessa ficção, pagando gente pra sentar nos estádios e mandar informação por telégrafo, evitando pagar direitos de transmissão ao vivo, até a liga profissional de beisebol processá-lo por isso.

O Brasil escolheu o caminho oposto

O rádio brasileiro nunca desenvolveu essa cultura de recriação simulada, por um motivo simples: não tinha como. As Copas do Mundo de 1930 e 1934 não tiveram cobertura de rádio nenhuma no país, só jornal impresso no dia seguinte. A primeira transmissão internacional ao vivo só veio na Copa de 1938, na França, narrada por Gagliano Neto via cabo submarino e ondas curtas direto pra rádios do Rio e São Paulo. O rádio brasileiro pulou direto de "nada" pra "transmissão real à distância", sem passar por uma fase de encenação em estúdio.

O desafio nacional era outro: faltava infraestrutura física dentro dos próprios estádios. Narradores transmitiam de telhados de casas vizinhas quando não conseguiam linha telefônica no lugar certo; o locutor Amador Santos chegou a narrar um Fla-Flu do telhado de um galinheiro. Enquanto o americano ficava trancado a centenas de quilômetros de distância, batendo taco de mentira contra uma tira de papel, o brasileiro se equilibrava fisicamente perto do jogo real, em condições precárias, mas nunca inventando o que não tinha visto.

De telhado de galinheiro a estúdio telegráfico, o que separava um bom locutor de beisebol ou de Fla-Flu era a mesma coisa: saber contar o jogo com o corpo e a voz, mesmo sem ver tudo. É esse ofício que o curso de Narração Esportiva da Escola de Rádio ensina na prática, dos fundamentos até a narração ao vivo.

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