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Abrem-se as cortinas: o narrador que tratava cada jogo como um espetáculo

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Microfone retrô cromado sobre pedestal em estúdio, em tons de preto e branco, evocando a era de ouro do rádio e da narração esportiva

Fiori Gigliotti narrou dez Copas do Mundo tratando cada partida como teatro. A história do Locutor da Torcida Brasileira é também uma aula sobre o que separa narrar de apenas descrever.

Para Fiori Gigliotti, um jogo de futebol não começava com o apito do juiz. Começava quando ele anunciava, com a solenidade de quem levanta o pano de um teatro: "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo." Durante quase sessenta anos diante do microfone, ele tratou cada partida como uma peça, com herói, vilão, suspense e um final que ninguém conhecia de antemão. E o Brasil inteiro comprava ingresso.

Do interior de São Paulo para dez Copas do Mundo

Filho de imigrantes italianos, Fiori entrou no rádio em 1947, ainda muito jovem, na Rádio Clube de Lins, no interior paulista. Dali foi subindo: Cultura de Araçatuba, Bandeirantes, Panamericana (a futura Jovem Pan), Tupi, Record. Pelo caminho, narrou dez Copas do Mundo. Ele costumava dizer que, de tudo o que viu, o maior jogo da sua vida foi a final do Mundial Interclubes de 1962, entre Santos e Benfica, com Pelé no auge.

O locutor da torcida brasileira

O apelido se justificava lance a lance. Fiori não fingia o distanciamento de um repórter neutro, ele sofria, vibrava e respirava junto com quem estava do outro lado do rádio. "Aguenta, coração!", soltava nos minutos finais de um jogo apertado. "E o tempo passa, torcida brasileira", lembrava quando faltava o gol. "Uma beleza de gol!", celebrava, esticando as vogais até onde o fôlego deixasse. Cada frase dessas dava a quem ouvia um lugar emocional dentro da partida. Ele não estava ali só para informar o jogo, e sim para fazer o ouvinte vivê-lo.

Narrar, para ele, era interpretar

A longevidade de Fiori vinha daí. Quando a televisão chegou e passou a mostrar tudo, muita gente continuou baixando o som da TV para ouvir o rádio. A imagem mostrava o lance; só a voz dava a emoção dele. Fiori sabia que um narrador é, antes de tudo, um intérprete: alguém que usa timbre, ritmo, pausa e vocabulário para construir, na cabeça de quem escuta, uma cena que a pessoa não está vendo. O palco que ele montava não ficava em estádio nenhum: ficava na imaginação do ouvinte.

O que ele fazia no instinto, hoje se estuda

Fiori morreu em 2006, no fim de uma carreira que atravessou seis décadas, sem nunca ter recebido um manual de como se narra um jogo, ele foi, ele próprio, parte do manual que veio depois. O que descobriu na prática é exatamente o que separa um locutor esportivo de alguém que apenas descreve lances: a capacidade de interpretar, de dar cor e tensão a noventa minutos de bola rolando.

Transformar a partida em espetáculo é uma habilidade, e, como toda habilidade, se aprende. É o que se treina, aula após aula, no curso de Narração Esportiva da Escola de Rádio. Como o velho Fiori avisava ao fim de cada transmissão, fecham-se as cortinas e termina o jogo.

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