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4 mil chamados de emergência atendidos por uma única casa em Porto Alegre, um ano antes de virar rede oficial

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Close-up de um homem usando luvas e colete de segurança laranja, falando em um rádio comunicador portátil ao ar livre, sob luz forte.

Nas enchentes do RS em 2024, um radioamador voluntário atendeu mais de 4 mil chamados de emergência numa estação improvisada em casa. Só um ano depois isso virou rede oficial de Anatel, LABRE e Defesa Civil. Por que o rádio ainda funciona quando tudo o mais cai.

Mais de quatro mil chamados de emergência. Foi esse o número que um único radioamador voluntário, o servidor da Anatel Andreas Hanke Stern, atendeu numa estação improvisada dentro da própria casa em Porto Alegre, durante as enchentes que tomaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Só um ano depois, em junho de 2025, Anatel, LABRE-RS e Defesa Civil estadual assinaram o protocolo que faltava: quem chama quem antes da próxima enchente, não depois dela.

Enquanto a rede de telefonia caía região por região, um rapaz em cima de um telhado ouviu por acaso, no próprio rádio portátil, uma chamada da Defesa Civil perguntando se havia gente precisando de socorro por perto. Respondeu que sim: quatro crianças e dez adultos presos num telhado ali do lado. O resgate saiu dali, porque a torre mais próxima estava fora do ar.

Por que o rádio continua de pé quando tudo o mais cai

A explicação é técnica e simples: uma rede de radioamador não depende de infraestrutura centralizada. Não precisa de torre de celular, de servidor de internet, de energia de concessionária chegando até uma central. Funciona com equipamento próprio, muitas vezes rodando a bateria ou gerador, e enquanto existir atmosfera as ondas de rádio se propagam. A maioria dos repetidores VHF/UHF do Rio Grande do Sul tinha ficado fora de serviço por falta de energia durante as cheias, e os radioamadores passaram a usar a frequência simplex 146,520 MHz, conhecida como "frequência nacional de chamada", pra formar uma rede direta, rádio a rádio, sem depender de nenhuma torre.

Em fevereiro de 2022, na tragédia de Petrópolis, 53 radioamadores voluntários da ROER já tinham feito o mesmo: foram considerados fundamentais nas primeiras 48 horas, período em que energia, internet, celular e redes sociais ficaram comprometidos ao mesmo tempo.

De experiência informal a política pública

O primeiro simulado da nova rede conectou cidades do interior à Região Metropolitana de Porto Alegre, reunindo o presidente da LABRE-RS, uma capitã da Defesa Civil e agentes da própria Anatel.

Existe uma estrutura nacional por trás disso desde muito antes: a RENER, Rede Nacional de Emergência de Radioamadores, foi criada por portaria ministerial em 2001, com o único propósito de suprir a comunicação usual quando ela falhar por desastre ou calamidade pública. Levou 23 anos e uma enchente histórica pra essa portaria enfim ganhar simulado, protocolo, e um número certo de quem chamar.

Se essa engenhoca de bastidor do rádio interessa mais que o microfone em si, o curso de Produção Profissionalizante da Escola de Rádio mergulha exatamente nesse lado técnico da operação.

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