Morre Gracindo Júnior, aos 83 anos: a trajetória que começou no microfone da Rádio Nacional

O ator e diretor Gracindo Júnior morreu aos 83 anos, no Rio de Janeiro. Filho do lendário Paulo Gracindo, ele começou a carreira aos 15 anos na Rádio Nacional, o coração da época de ouro do rádio brasileiro, antes de brilhar na TV, no teatro e no cinema por mais de cinco décadas. Relembramos sua trajetória e o legado que atravessa gerações e mídias.
O Brasil se despede de um dos grandes nomes da sua dramaturgia. Gracindo Júnior morreu na noite de terça-feira, 1º de setembro de 2026, em casa, no Rio de Janeiro, aos 83 anos, por causas naturais. A informação foi confirmada na manhã de quarta-feira pelo filho, Pedro Gracindo. Foram mais de cinco décadas dedicadas ao teatro, à televisão, ao cinema e, onde tudo começou, ao rádio.
Nascido Epaminondas Xavier Gracindo, em 21 de maio de 1943, no Rio de Janeiro, ele era filho de outro gigante das artes brasileiras: o lendário Paulo Gracindo (1911 a 1995). Crescer nesse ambiente foi decisivo. E, como não poderia deixar de ser, o primeiro palco de Gracindo Júnior não teve plateia à vista. Teve microfone.
Tudo começou no rádio
Em 1959, aos 15 anos de idade, o jovem Gracindo Júnior fez um teste para a Rádio Nacional e foi aprovado. Lá, atuou como ator e como redator, aprendendo o ofício no lugar mais simbólico que um iniciante daquela geração poderia sonhar.
Para entender o tamanho desse começo, vale lembrar o que era a Rádio Nacional. Ela foi o coração da chamada época de ouro do rádio brasileiro, a emissora que reunia os maiores nomes do radioteatro e das radionovelas, que paravam o país inteiro em torno do aparelho na sala. E ninguém encarnou melhor essa força do que o próprio pai de Gracindo Júnior. Foi na Nacional que Paulo Gracindo brilhou em "O Direito de Nascer", de 1951, no papel de Albertinho Limonta, um dos maiores fenômenos de audiência da história do radioteatro. Foi ali também que ele conquistou o público com o Programa Paulo Gracindo e com o quadro Primo Pobre e Primo Rico.
Ou seja: o filho começou a carreira exatamente na casa onde o pai reinava. O microfone, antes das câmeras, foi a escola de Gracindo Júnior. É uma lembrança que fala diretamente a quem estuda e trabalha com comunicação. Voz, texto, tempo, presença. Tudo isso se aprende no rádio, e foi assim com ele.
Do microfone às câmeras
Formado por essa base radiofônica, Gracindo Júnior chegou à televisão em grande estilo: participou da inauguração da TV Globo, em 1965. Nos primeiros anos da emissora, esteve em produções que marcaram época, como "Rosinha do Sobrado", "Padre Tião", "A Rainha Louca", "A Próxima Atração", "Os Ossos do Barão" e "Supermanoela".
Ao longo das décadas seguintes, seu rosto ficou familiar em novelas como "Explode Coração", "Rainha da Sucata", "Celebridade" e "Como Uma Onda", esta última encerrando sua longa parceria com a Globo, em 2004.
Um capítulo especialmente bonito da carreira foi dividir a cena com o próprio pai. Em "O Bem Amado" e em "O Casarão", pai e filho trabalharam juntos, chegando a interpretar o mesmo protagonista em fases diferentes da vida. Poucas famílias artísticas brasileiras têm um encontro tão simbólico entre gerações.
Muito além de atuar
Gracindo Júnior não parou na interpretação. Também se destacou como diretor, à frente de trabalhos como a novela "Marron Glacé" e da direção de "Os Trapalhões", em 1983. Ainda participou da criação e da apresentação dos primeiros videoclipes de artistas brasileiros exibidos no "Fantástico", uma novidade absoluta para a época.
A partir de 2006, seguiu carreira na Record, em produções como "Luz do Sol", "Cidadão Brasileiro" e "Rei Davi", além de um trabalho na TVI, de Portugal. Foram gerações inteiras de espectadores acompanhando seu talento.
Um legado que atravessa mídias
Gracindo Júnior deixa a esposa, Daisy Poli, com quem viveu por mais de 50 anos, além de filhos e netos que dão continuidade à história da família nas artes.
Fica a lembrança de um artista completo, que soube transitar entre o rádio, a TV, o teatro e o cinema com a mesma naturalidade. E fica, sobretudo, uma inspiração para quem está começando agora: a base que sustenta uma grande carreira muitas vezes nasce diante de um microfone, no cuidado com a palavra e com a voz. Gracindo Júnior sabia disso desde os 15 anos.
Que descanse em paz.
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