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O barulho de passos no filme foi alguém batendo sapato numa caixa de areia

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Mãos passando um pincel macio diante de um microfone de estúdio para criar efeitos sonoros, técnica de foley e captação de detalhes de áudio

A chuva é óleo fritando, o osso quebrando é aipo, o cavalo são dois cocos. Conheça o foley, a arte de recriar à mão os sons que você acha que está vendo num filme, e que é puro bastidor de produção.

O som dos passos de um personagem cruzando o saguão, o ranger de uma porta velha, o estalo de uma janela que se abre, o baque de um soco numa briga: quase nada disso é gravado na hora da cena. A maior parte é fabricada depois, num estúdio, por um profissional que assiste à cena muda e produz cada som ali, com as próprias mãos e um monte de tranqueira. O ofício tem nome: foley, em homenagem a Jack Foley, que o inventou nos primórdios do cinema falado.

Por que não usar o som original da filmagem

Na hora de filmar, o microfone tem uma prioridade: capturar o diálogo limpo. Todo o resto, os passos, o roçar das roupas, os objetos, costuma vir abafado, sujo de ruído de set, vento e ordens da equipe. Em vez de brigar com esse material, a produção apaga os sons de ação e os reconstrói do zero, limpos e sob controle, encaixando cada um no lugar certo. O resultado soa mais real do que o som verdadeiro teria soado.

A cozinha de sons do artista de foley

É aqui que o ofício fica divertido. Chuva costuma ser fritura de óleo, ou grãos caindo sobre papel. Fogo é celofane amassado; ossos que se partem, talos de aipo. Para uma caminhada na neve, basta apertar um saquinho de amido de milho no ritmo dos passos. E o galope de um cavalo nasce de dois cocos batendo na medida certa. O artista de foley é meio inventor, meio cozinheiro: vive caçando o objeto que produz o som perfeito.

Mais perto da atuação do que do barulho

O trabalho não é só achar o som, é produzi-lo no instante exato e com a emoção da cena. O profissional assiste e atua junto: pisa no ritmo do personagem, mais pesado se ele está cansado, mais rápido se está com medo, sincronizando cada batida com o pé que aparece na tela. Um passo fora do tempo denuncia a trucagem na hora. É uma interpretação, só que feita com sons em vez da voz.

Um ofício que não para de existir

O foley nasceu no cinema, mas vive hoje em novela, animação, games, audiodrama e podcast narrativo. Tudo que conta história com som precisa que o som pareça real, e quase sempre é alguém fabricando isso à mão num estúdio. É o lado mais artesanal e criativo da produção de áudio: o tipo de criação sonora em que se põe a mão na massa num curso de produção, e que faz a gente perceber que boa parte do que parece que vê num filme, na verdade, ouve.

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