"Farmar aura": entenda a gíria que saiu dos games e virou febre

Entenda o que significa "farmar aura", a gíria da geração Z e Alfa que uniu games e carisma e viralizou nas redes e por que decifrar as novas linguagens é essencial para quem comunica.
Se você abriu o Instagram, entrou no TikTok ou apenas escutou uma conversa de adolescentes nas últimas semanas, é bem provável que tenha esbarrado na expressão "farmar aura". Ela se tornou uma das gírias mais populares entre as gerações Z e Alfa e já saiu das telas: hoje aparece também nas rodas de conversa do dia a dia e até em campeonatos presenciais organizados por jovens Brasil afora.
Mas o que ela quer dizer, afinal? "Farmar aura" é acumular carisma, presença, estilo, como se cada atitude marcante rendesse pontos num placar invisível de popularidade. A expressão nasce do encontro de dois universos. "Farmar" vem do verbo inglês to farm e é gíria de videogame: nos jogos, significa repetir tarefas para juntar recursos, itens ou experiência e evoluir o personagem, algo comum em títulos como Minecraft, Fortnite e World of Warcraft. Já "aura" representa a energia, a vibe, a presença que uma pessoa transmite. Junte as duas ideias e chega-se ao sentido atual: agir de um jeito que soma prestígio e admiração. Quando alguém passa vergonha ou comete um mico, vale o contrário, diz-se que a pessoa "perdeu aura".
O empurrão que levou o termo ao mundo todo veio de um vídeo. Rayyan Arkan Dhika, um menino indonésio de 11 anos, viralizou dançando na proa de uma canoa durante o Pacu Jalur, uma tradicional corrida de barcos. O contraste entre a cena simples e a confiança do garoto rendeu o comentário "bro is farming aura" algo como "tá ganhando moral". O conteúdo passou de 5 milhões de curtidas e foi recriado por celebridades e atletas mundo afora, de Neymar a astros da NFL.
E a brincadeira não ficou só nas telas. Nos últimos meses, "farmar aura" virou competição presencial em várias cidades do Brasil de Suzano (SP) a Cametá (PA), passando por estados como Ceará, Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses campeonatos, organizados pelos próprios jovens, os participantes sobem diante de uma plateia para disputar quem transmite mais carisma, presença e atitude: caminhadas em câmera lenta, olhares sérios, poses calculadas, gestos estilosos. Para um sociólogo da UFMG ouvido pela imprensa, o fenômeno mostra como a fronteira entre o virtual e o presencial ficou cada vez mais fina para quem cresceu conectado. Um meme que saiu do feed e ganhou palco, público e microfone.
Há um detalhe bonito que costuma passar batido: naquela corrida, o dançarino da proa tem função de verdade. Ele existe para animar a equipe e sinalizar à plateia quando o barco está na frente. Ou seja, muito antes de virar meme, aquele gesto já era pura comunicação, corpo, ritmo e presença contando uma história para quem assiste.
E é justamente aí que a conversa interessa a quem trabalha com rádio, TV e web. Comunicar é, antes de tudo, entender a língua de quem está do outro lado. E essa língua muda o tempo todo. Assim como "cringe", "POV" e "NPC" antes dela, "farmar aura" mostra a velocidade com que os games, os memes e as redes moldam a forma de a garotada falar e, no fundo, revela algo que não muda: a necessidade de pertencer, de ser visto, de causar boa impressão. O que se transformou foi o palco onde essa busca acontece, agora medido em curtidas, comentários e compartilhamentos.
Para o comunicador, decifrar essas novas linguagens não é bajular tendência nem sair repetindo gíria fora de hora o efeito, quando forçado, costuma ser o oposto do pretendido. É treinar o ouvido para reconhecer códigos, entender de onde vêm e saber quando fazem sentido no ar, na tela ou no feed. Quem domina o microfone e também a cultura da internet fala com mais gente, com mais verdade. No fim, "aura" boa mesmo é a de quem escuta antes de falar.
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