Toda entrevista ao vivo por telefone que você ouve hoje começou com um locutor decidindo ligar em vez de esperar o convidado chegar ao estúdio

César de Alencar transformou a Rádio Nacional na maior audiência do país e inventou a entrevista ao vivo por telefone, um recurso que até hoje sustenta o jornalismo e o rádio brasileiro.
Rio de Janeiro, Rádio Nacional, meados dos anos 1940. Um convidado não consegue chegar ao estúdio a tempo do programa ir ao ar. Na lógica da época, isso significa cancelar a participação: sem a pessoa fisicamente ali, diante do microfone, não tem entrevista. César de Alencar, que comandava o programa de auditório mais ouvido do rádio brasileiro, resolveu o problema de uma forma que ninguém tinha tentado antes: pegou o telefone, ligou pra fora do estúdio e colocou a resposta no ar em tempo real.
Um problema de logística, não de tecnologia
A tecnologia do telefone já existia havia décadas; o que faltava era alguém decidir usá-la desse jeito, dentro de uma transmissão ao vivo que não podia parar pra esperar. Antes disso, entrevistar alguém no rádio dependia inteiramente da presença física: se a pessoa não estava lá, a pauta caía. Ligar o telefone durante a transmissão resolveu, de um golpe só, toda entrevista com alguém que morava longe, estava atrasado, ou simplesmente não podia sair de casa.
Quem era o locutor por trás da ideia
César de Alencar nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 1917, e se radicou no Rio de Janeiro a partir de 1939. Comandava o Programa César de Alencar, que ficou no ar diariamente por trinta anos pela Rádio Nacional e é considerado o maior programa de auditório da história do rádio brasileiro. Foi ele também quem trouxe pro Brasil o formato de parada de sucessos, a Parada dos Maiorais, e criou, ainda na Rádio Clube do Brasil, um dos primeiros programas de calouros do país, o Cantinho dos Novos.
Uma decisão sem manual
Hoje, a entrada ao vivo por telefone é tão automática que ninguém mais discute se é possível. Repórter de rua, correspondente internacional, convidado que não pôde se deslocar: tudo isso se resolve com uma ligação. A diferença é que, em 1945, alguém teve que decidir fazer isso pela primeira vez, sem saber se ia funcionar, sem manual, só com a pressão de um programa que precisava ir ao ar custasse o que custasse.
Tomar uma decisão assim no ar, sem manual e sem tempo pra pensar duas vezes, é ofício de quem se forma pra comandar um programa ao vivo, e é isso que o curso de Locução Profissionalizante da Escola de Rádio ensina na prática.
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