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A mentira que a gente gosta de ouvir

4 min de leitura
A mentira que a gente gosta de ouvir

Por que acreditamos no que queremos, o perigo de repassar informação sem checar e o papel de quem tem um microfone nas mãos.

Chega mais uma mensagem no grupo da família. Um áudio alarmante, uma foto chocante, um texto que começa com "compartilhe antes que apaguem". Em poucos minutos, já foi repassada para dezenas de pessoas. Ninguém checou de onde veio. Ninguém perguntou se era verdade.

Você provavelmente já viu essa cena. Talvez já tenha sido quem apertou o botão de encaminhar. Quem nunca? E é justamente por isso que queremos falar sobre um assunto que me incomoda cada vez mais: a facilidade com que acreditamos no que queremos acreditar.

Por que acreditamos no que queremos

A psicologia tem nome para isso: viés de confirmação. Nosso cérebro gosta de ter razão. Quando uma informação confirma o que já pensamos, ela entra sem pedir licença. Quando contraria, levantamos o escudo e procuramos defeitos.

Isso não é falta de inteligência. Acontece com professores, médicos, jornalistas, com gente de esquerda e de direita, religiosa ou não. A diferença é quem percebe que está fazendo isso e quem não percebe.

Alguns ingredientes deixam tudo mais fácil de engolir:

  • Emoção. Notícias que provocam raiva, medo ou indignação circulam muito mais rápido do que as calmas. Quando sentimos muito, pensamos pouco.
  • Pertencimento. Acreditar no que o meu grupo acredita me faz sentir parte dele. Duvidar pode parecer traição.
  • Confiança em quem enviou. Se veio do meu primo, da minha amiga, do meu pastor, do meu ídolo, deve ser verdade.
  • Repetição. Quanto mais vezes ouvimos uma coisa, mais familiar e verdadeira ela parece, mesmo sendo falsa.

O perigo de repassar sem pensar

Uma mentira repassada não fica parada. Ela muda decisões reais. Já vimos gente deixar de vacinar os filhos por boatos, famílias brigarem e pararem de se falar, pessoas inocentes serem atacadas por causa de uma acusação falsa e eleições inteiras contaminadas por desinformação.

O mais grave é que, depois que a mentira se espalha, a correção quase nunca alcança o mesmo número de pessoas. O estrago fica.

E quem repassa raramente tem má intenção. Na maioria das vezes, acha que está ajudando, alertando, protegendo alguém. Por isso o problema não se resolve apontando o dedo para o outro. Começa em cada um de nós.

Antes de repassar, respire

Não precisa virar detetive. Alguns cuidados simples já fazem muita diferença:

  1. Desconfie do que mexe demais com você. Se a mensagem te deixou com muita raiva ou muito medo, pare um minuto antes de encaminhar.
  2. Procure a fonte. Quem disse isso? Algum veículo conhecido publicou? Texto sem autor e sem link merece cuidado redobrado.
  3. Veja a data. Muita notícia antiga volta a circular como se fosse de hoje.
  4. Consulte quem checa. Agências como Lupa, Aos Fatos e Fato ou Fake verificam boatos todos os dias. Uma busca rápida resolve muita coisa.
  5. Desconfie da urgência. "Compartilhe antes que apaguem" é quase sempre sinal de alerta.
  6. Na dúvida, não repasse. Ficar quieto também é uma forma de proteger as pessoas que você ama.

Quem tem microfone tem mais responsabilidade

Se isso vale para qualquer pessoa com um celular na mão, vale ainda mais para quem trabalha com comunicação. Uma frase dita no rádio, na TV ou num podcast chega a milhares de ouvidos de uma vez. E a voz de um comunicador carrega credibilidade: o público confia em quem está no ar.

Por isso, no rádio, checar antes de falar não é detalhe, é parte do ofício. Um bom comunicador ouve mais de uma fonte, separa fato de opinião, corrige no ar quando erra e não transforma boato em notícia só porque está todo mundo comentando.

Aqui na Escola de Rádio, TV e Web, a gente acredita que formar comunicadores é também formar gente que respeita o público. Técnica de voz se aprende. Compromisso com a verdade também.

Uma pergunta para levar com você

É fácil enxergar o viés no outro. Difícil é enxergar em nós mesmos. Então deixamos aqui um convite: pense na última notícia que você compartilhou e se pergunte, com sinceridade, se acreditou porque checou ou porque era o que você queria ouvir.

A verdade nem sempre é confortável. Mas uma conversa honesta, em casa, no grupo da família ou aqui no blog, começa quando a gente aceita a possibilidade de estar errado.

E você, já caiu em alguma mentira que parecia muito verdadeira? Conta nos comentários.

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