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Um gesto também é uma mensagem

3 min de leitura
Um gesto também é uma mensagem

No segundo turno das eleições, uma eleitora fez a saudação nazista ao sair da sua seção de votação, em Botafogo, e o caso está sendo investigado pela Polícia Civil. A partir desse episódio, a ER+ reflete sobre o peso dos gestos, a responsabilidade de quem comunica e por que nazismo não é opinião, é crime.

O que aconteceu

No domingo, 25 de outubro, dia do segundo turno, uma eleitora fez a saudação nazista ao sair da sua seção de votação em um Colégio em Botafogo. A cena foi filmada por quem estava ali.

Questionada, ela não recuou. Debochou de quem filmava e seguiu caminhando, como se nada tivesse acontecido.

Um homem judeu que presenciou a cena registrou ocorrência e anexou o vídeo. A 10ª DP (Botafogo) investiga o caso como injúria e preconceito, já ouviu duas testemunhas e identificou a mulher, que agora deve prestar depoimento. O caso também foi levado ao Ministério Público do Rio. A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro condenou o episódio, e o Colégio Santo Inácio e a Justiça Eleitoral colocaram as imagens à disposição da investigação.

Não vamos repetir aqui o nome dela. A questão não é a pessoa. É o que o gesto diz.

Não é opinião. É crime.

A saudação nazista não é um gesto neutro, nem uma provocação inocente. Ela carrega a memória de um regime que perseguiu e matou milhões de pessoas: judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, opositores políticos.

No Brasil, praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional é crime previsto na Lei 7.716/89. A mesma lei pune especificamente quem divulga o nazismo, e a pena aumenta quando o crime é cometido pelos meios de comunicação ou em publicações.

Liberdade de expressão é um valor que defendemos todos os dias nesta escola. E justamente por isso sabemos onde ela termina: no ponto em que a fala vira ataque à dignidade de outras pessoas.

Todo mundo comunica. Nem todo mundo sabe o que está dizendo.

O caso de Botafogo chocou, mas não é isolado. Todos os dias vemos pessoas comunicando de forma irresponsável: comentaristas que fazem gestos “sem querer”, influenciadores que transformam ódio em piada, perfis que espalham informação falsa porque rende engajamento.

Hoje, qualquer pessoa com um celular tem um microfone na mão. Um vídeo gravado no pátio de uma escola chega a milhares de pessoas em poucas horas. Isso muda tudo: a responsabilidade de quem comunica deixou de ser só dos profissionais.

E comunicar não é só falar. O corpo fala. O tom fala. O silêncio fala. Um braço erguido diz mais do que muitos discursos, e quem faz o gesto sabe exatamente o que está dizendo.

O que ensinamos na ER+

Desde 1994, a Escola de Rádio, TV e Web forma comunicadores no Rio de Janeiro. Ensinamos voz, dicção, postura, presença de câmera, improviso. Mas nada disso vale muito sem uma base que vem antes de qualquer técnica: saber o peso do que se comunica.

Por isso, na nossa sala de aula, falamos de ética, de respeito e de responsabilidade com a mesma seriedade com que falamos de respiração e impostação. Um bom comunicador não é só quem fala bem. É quem sabe que cada palavra, cada gesto e cada escolha chegam a pessoas reais.

Quem tem acesso a um microfone, a uma câmera ou a um público tem também o dever de não usar esse espaço para espalhar ódio.

Comunicar é escolher

Nazismo não é opinião, não é lado político, não é brincadeira. Não cabe em sala de aula, não cabe em estúdio, não cabe em seção eleitoral.

Se você presenciar um caso como esse, registre e denuncie. E se você trabalha com comunicação, ou sonha em trabalhar, lembre sempre: comunicar é escolher. Escolha bem.

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