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Um locutor decidiu sozinho interromper a Rádio Nacional antes mesmo de avisar os próprios chefes

Por Arthur Jobim3 min de leitura
Close-up em preto e branco de um microfone de estúdio com foco seletivo, remetendo ao clima de uma redação de rádio

Como uma emissora decide interromper a programação pra dar notícia urgente: o telefonema de dentro do Palácio do Catete em 1954, e quarenta anos depois, um repórter num hospital na Itália segurando a voz pra anunciar a morte de Ayrton Senna.

Às oito da manhã de 24 de agosto de 1954, o locutor Heron Domingues leu a edição regular do Repórter Esso na Rádio Nacional, do jeito de sempre. Trinta minutos depois, o telefone tocou: era Victor Costa, diretor da emissora, ligando de dentro do Palácio do Catete. A voz do outro lado, segundo o próprio Domingues relatou depois, estava "totalmente alterada". Costa disse que o presidente Getúlio Vargas acabara de cometer suicídio.

Domingues ficou, nas palavras dele, perplexo. Hesitou em contar primeiro aos diretores da emissora, com medo do impacto em funcionários mais velhos, e decidiu correr direto para o microfone. Foi ao ar com uma edição extraordinária antes mesmo de qualquer reunião de redação, antes de qualquer confirmação formal, só com a palavra de um diretor que estava, por acaso, dentro do palácio.

A notícia sem pauta, sem checagem, sem tempo

O Repórter Esso furou a cobertura naquele dia porque a empresa patrocinadora do programa tinha trânsito livre dentro do Palácio do Catete, e foi esse acesso privilegiado, não um protocolo de redação, que decidiu quem chegaria primeiro. Cerca de meia hora depois, o ministro da Fazenda Oswaldo Aranha leu ao vivo, pelo telefone, a carta-testamento que Vargas tinha deixado junto à cama.

Nem toda emissora seguiu o mesmo caminho. Em Porto Alegre, a Rádio Farroupilha manteve música e radionovela praticamente normais naquela manhã, interrompendo só de vez em quando com boletins extraordinários. Não existia um protocolo nacional único obrigando a interrupção total; cada emissora decidia sozinha, na hora, o tamanho da própria pausa.

Quarenta anos depois, o mesmo dilema, outro microfone

O mesmo tipo de decisão se repetiu em 1994, num contexto bem diferente: não um telefonema de dentro de um palácio, mas um repórter parado num hospital, sem produção nenhuma por trás. No dia 1º de maio, o jornalista Roberto Cabrini estava no hospital de Imola, na Itália, passando boletins por telefone celular sobre o estado de saúde do piloto Ayrton Senna, improvisando cada frase, sem ninguém checando o que ele dizia antes de ir ao ar. Às 13h40, ele anunciou a morte ao vivo, interrompendo a programação da Globo: "Morreu Ayrton Senna da Silva, uma notícia que a gente jamais gostaria de dar."

Ele contou depois que sabia estar, naquele instante, anunciando a morte de alguém que boa parte do país sentia como parente próximo, e que precisou segurar a emoção pra manter a precisão da informação: mesmo sem roteiro, sem produção, sem tempo pra pensar na frase certa, a voz teve que continuar firme até a última palavra.

É esse tipo de reflexo (sustentar a voz e a clareza quando não existe roteiro pronto) que um curso como o de Locução Profissionalizante da Escola de Rádio ajuda a treinar.

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