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Renato Machado (1943–2026): a serenidade como técnica

4 min de leitura
Imagem do Renato Machado

O jornalista Renato Machado morreu aos 83 anos no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 2026. Relembre a trajetória do ex-âncora do Bom Dia Brasil, do rádio à correspondência internacional, e o que sua sobriedade no ar ensina a quem trabalha com comunicação.

O telejornalismo brasileiro perdeu, na manhã de quinta-feira (16 de julho de 2026), um dos seus nomes mais reconhecíveis. Renato Machado morreu aos 83 anos, na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro. A causa não foi divulgada pela família nem pelo hospital, que se limitou a lamentar o falecimento e a expressar condolências aos familiares. A morte foi confirmada pela TV Globo, emissora em que ele construiu quatro décadas de carreira.

Para quem trabalha com comunicação, ou está aprendendo agora, a trajetória de Renato Machado é um caso raro de coerência entre o que se diz e como se diz.

Do teatro ao microfone

Renato Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de março de 1943. Formou-se em Direito pela PUC-Rio, foi aprovado no exame do Itamaraty e escolheu, mesmo assim, o palco: começou no teatro amador e chegou ao Teatro Oficina, em São Paulo. Essa formação artística nunca o abandonou. Ela reaparecia na dicção, no ritmo da leitura, no domínio da pausa , recursos que qualquer estudante de locução reconhece como técnica, e não como talento nato.

O jornalismo veio em seguida. Em 1969, entrou como repórter no Jornal do Brasil. No ano seguinte, começou no rádio. Passou pela BBC e pela extinta Rede Manchete antes de chegar à TV Globo, em 1982.

O primeiro plantão da televisão brasileira

Sua estreia de peso na emissora foi a cobertura da Guerra das Malvinas. Foi ali que a televisão brasileira exibiu seu primeiro plantão jornalístico: na tela, o letreiro; no ar, apenas a voz de Renato Machado. É um detalhe que diz muito sobre o ofício. Sem imagem, sem cenário, sem apoio visual, só a voz sustentando a credibilidade da informação. É exatamente o exercício que o rádio ensina e que a TV, quando precisa, vai buscar de volta.

Em 1983, tornou-se correspondente em Londres. De lá, cobriu o desastre nuclear de Chernobyl e os atentados em Paris, em 1986. Voltou ao Brasil em 1988 como repórter especial.

Bom Dia Brasil: a manhã como formato

Entre 1996 e 2010, Renato Machado acumulou as funções de apresentador e editor-chefe do Bom Dia Brasil e reformulou o telejornal. Ao lado de Leilane Neubarth e, depois, de Renata Vasconcellos, ajudou a implantar um modelo mais ágil: mais conversa entre bancada e repórteres, participações ao vivo, comentaristas, melhor aproveitamento do estúdio e espaço para cultura, música e gastronomia.

Parece pouco, hoje. Não era. Esse desenho, apresentador que interage, que pergunta, que devolve, virou gramática dos jornais matinais brasileiros e continua sendo estudado como referência de ancoragem.

Ele também apresentou o Jornal da Globo e o RJTV, integrou a bancada do Jornal Nacional substituindo os titulares e chegou a ser indicado ao Emmy Internacional. Em 2011, voltou ao posto de correspondente em Londres, que passou a Cecília Malan em janeiro de 2016. De volta ao Brasil, fez reportagens especiais para o Globo Repórter. Encerrou o ciclo na emissora em novembro de 2021.

O que fica para quem está começando

Colegas de redação o descreveram como culto, querido e sóbrio. A sobriedade, no caso dele, não era frieza, era método. Renato Machado narrou o impeachment de Fernando Collor e a morte de Ayrton Senna sem transformar a própria emoção no assunto. Manteve o fato no centro.

Essa é uma das lições mais difíceis de ensinar em sala de aula: o comunicador não é o acontecimento. A voz existe para conduzir o ouvinte até a informação, não para disputar atenção com ela. Renato Machado passou cinquenta anos demonstrando isso no ar.

Ele deixa a esposa, a comunicadora Mônica Morel, a filha, a atriz Maria Eduarda Machado, e uma neta, Serena, nascida no ano passado. Fiel à discrição que marcou sua vida pessoal, a família manteve o velório e o sepultamento restritos a parentes e amigos próximos, sem divulgação de data, local ou horário à imprensa.

A ER+ presta sua homenagem a um profissional que ajudou a definir o padrão do telejornalismo brasileiro — e que começou, como tantos dos nossos alunos começam, diante de um microfone, com a voz e a palavra como únicas ferramentas.

Fontes: CNN Brasil · Metrópoles · Diário do Rio · O Povo

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