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Voltar pro blogHistória do Radio

O locutor que avisava o gol tocando gaita

Por Arthur Jobim2 min de leitura
Retrato em preto e branco de Ary Barroso, de óculos e bigode, acendendo um cigarro.

Autor de "Aquarela do Brasil", Ary Barroso também foi um dos maiores nomes do rádio esportivo — e tinha um truque inesquecível para anunciar os gols: uma gaitinha que furava o barulho da torcida.

Imagine acompanhar um jogo de futebol pelo rádio, no meio da multidão gritando, e de repente ouvir o som agudo de uma gaitinha cortando o barulho. Era assim que milhões de brasileiros descobriam que tinha saído gol. Quem soprava o instrumento era Ary Barroso, o mesmo homem que compôs "Aquarela do Brasil". Na vida dele, a música e o microfone nunca andaram separados.

O compositor que também era locutor

Nascido em Ubá, Minas Gerais, em 1903, Ary se formou em Direito mas nunca advogou. Foi pianista, compositor, ator, humorista, apresentador e, com o mesmo talento, narrador esportivo. Sua "Aquarela do Brasil", de 1939, é até hoje uma das canções brasileiras que mais rendem direitos autorais no exterior. Mas era no rádio, ao vivo, que ele mostrava outra faceta: a do comunicador que sabia prender o ouvinte.

A gaita que substituía o grito

A ideia da gaita nasceu de um problema prático. Naquela época, o grito do locutor muitas vezes se perdia no rugido da torcida, e o ouvinte em casa ficava sem saber se a bola tinha entrado. Em vez de berrar mais alto, Ary resolveu na esperteza: passou a anunciar o gol com uma pequena gaita infantil, de som agudo, que furava o barulho do estádio. E havia uma assinatura na brincadeira. Quando o gol era do Flamengo, time do coração, ele soprava com vontade, várias vezes seguidas. Quando era do adversário, a gaita saía sem nenhum entusiasmo.

Personalidade no ar

Ary fez sua primeira narração em 1936 e trabalhou anos na Rádio Tupi como locutor e chefe da seção de esportes. Suas transmissões pela Rádio Nacional chegavam a todos os cantos do país e ajudaram a espalhar a torcida do Flamengo Brasil afora. Ele também foi conhecido como jurado severo de programas de calouros, do tipo que não tinha dó de interromper um cantor desafinado. Apaixonado, parcial, divertido: ninguém ligava o rádio sem saber exatamente quem estava do outro lado.

Quando morreu, em 1964, num domingo de Carnaval, o Brasil perdeu ao mesmo tempo um gênio da canção e uma das vozes mais marcantes do rádio. A lição que ele deixou continua valendo: no microfone, o que fica para sempre não é só a informação, é a personalidade de quem fala. Construir essa identidade diante do microfone é o que se aprende, ainda hoje, nos cursos da Escola de Rádio.

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